“ O Evangelho
lembra-nos também que os filhos não são uma propriedade da família, mas
espera-os o seu caminho pessoal de vida. Se é verdade que Jesus Se apresenta
como modelo de obediência a seus pais terrenos, submetendo-Se a eles (cf. Lc 2, 51), também é certo que Ele faz ver que a
escolha de vida do filho e a sua própria vocação cristã podem exigir uma
separação para realizar a entrega de si mesmo ao Reino de Deus (cf. Mt 10, 34-37; Lc 9, 59-62). Mais ainda! Ele próprio, aos doze
anos, responde a Maria e a José que tem uma missão mais alta a realizar para
além da sua família histórica (cf. Lc 2, 48-50). Por isso, exalta a necessidade de outros
laços mais profundos, mesmo dentro das relações familiares: «Minha mãe e meus
irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática»
(Papa Francisco, Amoris Laetitia, n. 18)
Jerusalém
e Nazaré: dois espaços geográficos que integram a missão de Jesus.
Ele foi
morar “numa cidade chamada Nazaré”. Nazaré, um lugar desconhecido e
insignificante, é o sinal da epifania de Deus na rotina do dia-a-dia, é o sinal
da palavra divina escondida nas vestes humildes da vida simples; é a escuta
atenta ao Pai que fala na simplicidade
dos atos e das pequenas coisas, próprios de um ambiente familiar.
Em
Nazaré Jesus nos convida a entrar em sua casa para aprender dele e com Ele os
valores de Evangelho. É difícil compreender a “normalidade” da vida de Jesus
Cristo; parece até que o Reino não tem exigências sobre a vida de todo mundo,
mostrava que a salvação não consistia em coisas extraordinárias e em gestos fantásticos,
mas na “adoração do Pai em espírito e
verdade”. Jesus gasta praticamente toda a sua Vida nesta humilde condição;
passou despercebido como Messias. “O Reino se revela no pequeno, no anônimo e
não no espetacular, no grandioso”.
Podemos dizer
que Nazaré coloca os critérios evangélicos na nossa cabeça e no nosso coração.
A vida
de Nazaré chega à nossa vida em muitos momentos (serviços ocultos, doença, rotina...).
Nazaré pode transformar-se em Jerusalém quando, quem a habita, deixa-se possuir
pela totalidade do amor no coração. A “vida
oculta” coloca em evidencia nossas motivações e nossos valores mais
profundos.
É a importância
do não importante. O importante é ser significativo e não importante!
Jesus
nos ensina, em Nazaré, o valor das coisas corriqueiras, quando são feitas com
dedicação e carinho.
É uma
teologia do trabalho! O fazer, seja qual for segundo suas motivações, é redentor!
Não são
as coisas que nos fazem importantes, mas nós que fazemos qualquer coisa ser
importante!
È o
sentido que damos à nossa vida e à nossa ação que fazem com que estas sejam
significativas ou não.
Somos nós
que damos significado às coisas e não o contrário!
Quando
são “as coisas importantes” que nos fazem importante, e se, “essas coisas”, um
dia desaparecem, parece como se a própria vida perdesse seu sentido. Na escola
da vida, Jesus também foi aprendiz.
Aprender
é conseqüência básica da dinâmica da Encarnação. Lucas o confirma: “Jesus
crescia em sabedoria e em graça, diante de Deus e diante dos homens (Lc
2,40-50).
Portanto,
Jesus viveu a vida como um processo lento e progressivo, a partir da própria
condição humana no meio dos seus, no meio do povo e em vista do Reino de Deus,
graças a uma criatividade transformadora.
Essa
atenção à simplicidade do cotidiano, à natureza da Galiléia, A mensagem que o
Pai esconde nas pessoas, nas coisas, nas horas, na natureza... é uma constante
na pregação de Jesus.
Tanto em
Nazaré quanto na vida publica, Jesus nos comunica uma profunda união com o Pai. Ele recorre em seu
íntimo ao Pai, numa oração confiante e de entrega.
Jesus
sente quando o Pai o chama a mudar o estilo de vida escondido. Ele está atento
aos “sinais dos tempos”, e sabe discernir nesses sinais a Vontade do Pai que o
chama a mudar de caminho, a deixar sua terra, a lançar-se numa aventura. Começa
uma vida itinerante, missionária,
despojado de tudo.
Quando uma
pessoa não se empapa do cotidiano, não vive a vida normal do comum dos mortais,
quando não compartilha da alegria e das dores da imensa maioria, quando não
luta e se faz gente entre as pessoas, dificilmente terá resistência para viver
um grande projeto, sem sucumbir às armadilhas deste mundo.
Jesus, “sendo
um entre tantos” outros, acolhendo a vida cotidiana em toda sua riqueza, vai
sentindo que sua Nazaré estava ficando estreita para o sonho do Reino. Sente o impulso
para um “salto qualitativo”, brota o desejo de ampliar sua missão para além,
das fronteiras de seu ambiente familiar. “Criou
asas” e iniciou um longo vôo, marcado pela criatividade ilimitada e
presença inspiradora, sobretudo entre os mais pobres e excluídos de seu tempo.
Jesus ao
longo de sua vida pública revelou grande capacidade para despertar a autoria em
cada pessoa, de devolver-lhe sua dignidade, de remetê-la a si mesma, de
ajudá-la a conectar-se com seu ser mais profundo para poder também “abrir suas asas” e voar em direção a
largos horizontes.
Do mesmo
modo, com sua presença instigante, Ele ativava e fazia vir à tona o que de mais
humano havia nas pessoas. Frente aos doentes, pobres e excluídos, Jesus os
desafiava a serem mais humanos, pois via neles a nobreza interior que
carregavam.
Por
isso, diante de Jesus “destravador de asas”,
a vocação paterna e materna também significa ser chamado a ser presença “ativadora de asas” para os filhos,
despertando a confiança neles e
apostando no melhor que cada um conserva em seu coração.
O ser
humano “abre suas asas” quando matura
suas potencialidades, multiplica suas capacidades, extrai riqueza e
criatividade das profundezas de seu ser, alarga seus horizontes para um amplo vôo.
Sabemos que
toda pessoa se transforma a partir de seu interior. Mas é através da ação e da
presença instigante do outro que ela se sente motivada a transpor obstáculos no
seu cotidiano e revelar-se criativa, que sonha e faz o futuro, que se aproxima
pelo que aprende pelo que cria e realiza.
O vínculo
entre as pessoas e o sentimento de pertencer e de ser respeitados em suas
potencialidades, limites e necessidades levam as pessoas a reencontrar a essência
de sua condição de vida.
Só
seremos nós mesmos quando alguém nos descobre, nos acolhe, nos aceita...
respeita nossa verdadeira identidade. O outro é a realidade que nos permite
tomar consciência de nós mesmos e de nossa nobreza.
A
mediação do outro é muito importante para que possamos nos conhecer melhor e
sentir que não estamos sozinhos nos reveses da vida. Como seguidores de Jesus e
com sua presença humanizadora, os pais são promotores de habilidades para a
vida de seus filhos; com sua presença inspiradora, “dão asas” e despertam nos
filhos as potencialidades do humano que habitam em cada um deles, levando-os a
experimentar condições ousadas de crescimento e realização; na convivência
cotidiana, interagem com eles e conseguem extrair deles o melhor, fomentam o
papel ativo deles, incentivando-nos a desenvolver sua autonomia e dar asas à
sua imaginação.
O
ambiente familiar, sadio e instigante, torna os filhos conscientes de que são
seres em movimento, protagonistas de mudanças, capazes de criar novos modos de
existir, de romper com o instituído e buscar o diferente, o novo, o
desconhecido... A família é o espaço das inovações, dos riscos, dos
experimentos e da busca do novo. Nela se encontra o lugar dos sonhos, dos
desejos, da liberdade e autonomia.
Texto Bíblico:
MC 6,1-6; Mc 3,21-35; Lc 4,16-30
Na oração: viva em sua família a
grandeza de ser plenamente humano; descubra o significado profundo da vida
cotidiana mais simples: trabalhos, relações, família... O ambiente familiar,
quando espaço humanizador, integra a vida cotidiana de Nazaré com os desafios
de Jerusalém (família que se alarga, sai de si, se compromete, abre-se a causas
humanas...)
Na vida
de todos nós há momentos em que Deus intervém, tirando-nos de Nazaré para a vida
pública (Jerusalém). Ainda que o itinerário de Nazaré pareça pobre, se o
percorremos com fidelidade e amor, ele se insere no projeto de Deus, fica
iluminado e nos impulsiona a ter amplos horizontes.
Para
atravessar a Nazaré cotidiana é preciso aprender a dimensão perfeita do amor,
que é doação silenciosa, é oblação alegre e livre.
- como é sua família? Vive comprometida buscando
uma sociedade melhor e mais humana, ou fechada exclusivamente em seus próprios
interesses? Educa para a solidariedade, a paz, a sensibilidade para com os
necessitados... ou só ensina a viver para o consumo insaciável, o máximo lucro
e o esquecimento dos outros?
No
seu ambiente familiar cuida-se da fé, dos valores do Evangelho... ou se
favorece apenas um estilo de vida superficial, sem metas nem ideais...? É
espaço instigante, de crescimento, aberto ao novo e diferente... ou ambiente
atrofiante, sufocante...?
