SEMANA DA FAMÍLIA, AGOSTO DE 2023

 O Evangelho lembra-nos também que os filhos não são uma propriedade da família, mas espera-os o seu caminho pessoal de vida. Se é verdade que Jesus Se apresenta como modelo de obediência a seus pais terrenos, submetendo-Se a eles (cf. Lc 2, 51), também é certo que Ele faz ver que a escolha de vida do filho e a sua própria vocação cristã podem exigir uma separação para realizar a entrega de si mesmo ao Reino de Deus (cf. Mt 10, 34-37; Lc 9, 59-62). Mais ainda! Ele próprio, aos doze anos, responde a Maria e a José que tem uma missão mais alta a realizar para além da sua família histórica (cf. Lc 2, 48-50). Por isso, exalta a necessidade de outros laços mais profundos, mesmo dentro das relações familiares: «Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática»  (Papa Francisco, Amoris Laetitia, n. 18)

 

Jerusalém e Nazaré: dois espaços geográficos que integram a missão de Jesus.

Ele foi morar “numa cidade chamada Nazaré”. Nazaré, um lugar desconhecido e insignificante, é o sinal da epifania de Deus na rotina do dia-a-dia, é o sinal da palavra divina escondida nas vestes humildes da vida simples; é a escuta atenta ao Pai que fala na simplicidade dos atos e das pequenas coisas, próprios de um ambiente familiar.

Em Nazaré Jesus nos convida a entrar em sua casa para aprender dele e com Ele os valores de Evangelho. É difícil compreender a “normalidade” da vida de Jesus Cristo; parece até que o Reino não tem exigências sobre a vida de todo mundo, mostrava que a salvação não consistia em coisas extraordinárias e em gestos fantásticos, mas na “adoração do Pai em espírito e verdade”. Jesus gasta praticamente toda a sua Vida nesta humilde condição; passou despercebido como Messias. “O Reino se revela no pequeno, no anônimo e não no espetacular, no grandioso”.

Podemos dizer que Nazaré coloca os critérios evangélicos na nossa cabeça e no nosso coração.

A vida de Nazaré chega à nossa vida em muitos momentos (serviços ocultos, doença, rotina...). Nazaré pode transformar-se em Jerusalém quando, quem a habita, deixa-se possuir pela totalidade do amor no coração. A “vida oculta” coloca em evidencia nossas motivações e nossos valores mais profundos.

É a importância do não importante. O importante é ser significativo e não importante!

Jesus nos ensina, em Nazaré, o valor das coisas corriqueiras, quando são feitas com dedicação e carinho.

É uma teologia do trabalho! O fazer, seja qual for segundo suas motivações, é redentor!

Não são as coisas que nos fazem importantes, mas nós que fazemos qualquer coisa ser importante!

È o sentido que damos à nossa vida e à nossa ação que fazem com que estas sejam significativas ou não.

Somos nós que damos significado às coisas e não o contrário!

Quando são “as coisas importantes” que nos fazem importante, e se, “essas coisas”, um dia desaparecem, parece como se a própria vida perdesse seu sentido. Na escola da vida, Jesus também foi aprendiz.

Aprender é conseqüência básica da dinâmica da Encarnação. Lucas o confirma: “Jesus crescia em sabedoria e em graça, diante de Deus e diante dos homens (Lc 2,40-50).

Portanto, Jesus viveu a vida como um processo lento e progressivo, a partir da própria condição humana no meio dos seus, no meio do povo e em vista do Reino de Deus, graças a uma criatividade transformadora.

Essa atenção à simplicidade do cotidiano, à natureza da Galiléia, A mensagem que o Pai esconde nas pessoas, nas coisas, nas horas, na natureza... é uma constante na pregação de Jesus.

Tanto em Nazaré quanto na vida publica, Jesus nos comunica uma profunda união com o Pai. Ele recorre em seu íntimo ao Pai, numa oração confiante e de entrega.

Jesus sente quando o Pai o chama a mudar o estilo de vida escondido. Ele está atento aos “sinais dos tempos”, e sabe discernir nesses sinais a Vontade do Pai que o chama a mudar de caminho, a deixar sua terra, a lançar-se numa aventura. Começa uma vida itinerante, missionária, despojado de tudo.

Quando uma pessoa não se empapa do cotidiano, não vive a vida normal do comum dos mortais, quando não compartilha da alegria e das dores da imensa maioria, quando não luta e se faz gente entre as pessoas, dificilmente terá resistência para viver um grande projeto, sem sucumbir às armadilhas deste mundo.

Jesus, “sendo um entre tantos” outros, acolhendo a vida cotidiana em toda sua riqueza, vai sentindo que sua Nazaré estava ficando estreita para o sonho do Reino. Sente o impulso para um “salto qualitativo”, brota o desejo de ampliar sua missão para além, das fronteiras de seu ambiente familiar. “Criou asas” e iniciou um longo vôo, marcado pela criatividade ilimitada e presença inspiradora, sobretudo entre os mais pobres e excluídos de seu tempo.

Jesus ao longo de sua vida pública revelou grande capacidade para despertar a autoria em cada pessoa, de devolver-lhe sua dignidade, de remetê-la a si mesma, de ajudá-la a conectar-se com seu ser mais profundo para poder também “abrir suas asas” e voar em direção a largos horizontes.

Do mesmo modo, com sua presença instigante, Ele ativava e fazia vir à tona o que de mais humano havia nas pessoas. Frente aos doentes, pobres e excluídos, Jesus os desafiava a serem mais humanos, pois via neles a nobreza interior que carregavam.

Por isso, diante de Jesus “destravador de asas”, a vocação paterna e materna também significa ser chamado a ser presença “ativadora de asas” para os filhos, despertando a confiança  neles e apostando no melhor que cada um conserva em seu coração.

O ser humano “abre suas asas” quando matura suas potencialidades, multiplica suas capacidades, extrai riqueza e criatividade das profundezas de seu ser, alarga seus horizontes para um amplo vôo.

Sabemos que toda pessoa se transforma a partir de seu interior. Mas é através da ação e da presença instigante do outro que ela se sente motivada a transpor obstáculos no seu cotidiano e revelar-se criativa, que sonha e faz o futuro, que se aproxima pelo que aprende pelo que cria e realiza.

O vínculo entre as pessoas e o sentimento de pertencer e de ser respeitados em suas potencialidades, limites e necessidades levam as pessoas a reencontrar a essência de sua condição de vida.

Só seremos nós mesmos quando alguém nos descobre, nos acolhe, nos aceita... respeita nossa verdadeira identidade. O outro é a realidade que nos permite tomar consciência de nós mesmos e de nossa nobreza.

A mediação do outro é muito importante para que possamos nos conhecer melhor e sentir que não estamos sozinhos nos reveses da vida. Como seguidores de Jesus e com sua presença humanizadora, os pais são promotores de habilidades para a vida de seus filhos; com sua presença inspiradora, “dão asas” e despertam nos filhos as potencialidades do humano que habitam em cada um deles, levando-os a experimentar condições ousadas de crescimento e realização; na convivência cotidiana, interagem com eles e conseguem extrair deles o melhor, fomentam o papel ativo deles, incentivando-nos a desenvolver sua autonomia e dar asas à sua imaginação.

O ambiente familiar, sadio e instigante, torna os filhos conscientes de que são seres em movimento, protagonistas de mudanças, capazes de criar novos modos de existir, de romper com o instituído e buscar o diferente, o novo, o desconhecido... A família é o espaço das inovações, dos riscos, dos experimentos e da busca do novo. Nela se encontra o lugar dos sonhos, dos desejos, da liberdade e autonomia.

Texto Bíblico: MC 6,1-6; Mc 3,21-35; Lc 4,16-30

Na oração: viva em sua família a grandeza de ser plenamente humano; descubra o significado profundo da vida cotidiana mais simples: trabalhos, relações, família... O ambiente familiar, quando espaço humanizador, integra a vida cotidiana de Nazaré com os desafios de Jerusalém (família que se alarga, sai de si, se compromete, abre-se a causas humanas...)

Na vida de todos nós há momentos em que Deus intervém, tirando-nos de Nazaré para a vida pública (Jerusalém). Ainda que o itinerário de Nazaré pareça pobre, se o percorremos com fidelidade e amor, ele se insere no projeto de Deus, fica iluminado e nos impulsiona a ter amplos horizontes.

Para atravessar a Nazaré cotidiana é preciso aprender a dimensão perfeita do amor, que é doação silenciosa, é oblação alegre e livre.

- como é sua família? Vive comprometida buscando uma sociedade melhor e mais humana, ou fechada exclusivamente em seus próprios interesses? Educa para a solidariedade, a paz, a sensibilidade para com os necessitados... ou só ensina a viver para o consumo insaciável, o máximo lucro e o esquecimento dos outros?

         No seu ambiente familiar cuida-se da fé, dos valores do Evangelho... ou se favorece apenas um estilo de vida superficial, sem metas nem ideais...? É espaço instigante, de crescimento, aberto ao novo e diferente... ou ambiente atrofiante, sufocante...?

 
Indique a um amigo
 
 
Mais artigos
CADASTRE SEU E-MAIL

E RECEBA NOVIDADES